Quarta, Abril 26, 2017
   
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A Espanha Muçulmana

Colunas - O Legado Islâmico

Al hambra

 

A Andaluzia foi um importante centro da civilização islâmica e foi uma das rotas mais importantes, através da qual está civilização se transferiu para a Europa.

 

 

 

 

O Legado Muçulmano na Espanha
 
 
Quando se pensa na cultura europeia uma das primeiras coisas que podem vir à mente é a renascença.  Muitas das raízes da cultura europeia podem ser traçadas a partir daquele tempo glorioso de arte, ciência, comércio e arquitetura.  Mas você sabia que muito antes da renascença havia um lugar de beleza humanística na Espanha muçulmana?  Não somente era artística, científica e comercial, mas também exibia tolerância, imaginação e poesia incríveis.  Os muçulmanos habitaram a Espanha por quase 800 anos.  Foi sua civilização que iluminou a Europa e a tirou da idade das trevas para introduzi-la na renascença.  Muitas das suas influências culturais e intelectuais continuam vivas conosco hoje.Al-Andaluz, foi o nome dado à península Ibérica pelos árabes muçulmanos, a partir do ano de 711 (século VIII), tendo o nome sido utilizado para se referir à península, independentemente do território politicamente controlado pelos muçulmanos. A origem do nome Al-Andaluz é incerta, o nome fez a sua primeira aparição em 716, num dinar bilíngue cunhado na Península Ibérica e que se encontra hoje em dia no Museu Arqueológico Nacional em Madrid. Nessa moeda a palavra Span(ia), em latim, corresponde a Al-Andaluz, em árabe. A região ocidental da península era denominada Gharb Al-Andaluz ("o ocidente do Al-Andaluz") e incluía o atual território português. De uma maneira geral, o Gharb Al-Andaluz foi uma região periférica em relação à vida econômica, social e cultural do Al-Andaluz.
 
As circunstâncias que marcaram a chegada dos muçulmanos à Península Ibérica, foram deturpadas pelas lendas, quando o rei visigodo Vitiza morreu, os seus seguidores nomearam seu filho Agila, de dez anos de idade, herdeiro do trono, mas os mais conservadores, elegerem por sua vez como rei, a Rodrigo, duque da Bética, o que deu origem a uma guerra civil. O irmão de Vitiza, o conde Oppas, refugiou-se em Ceuta, governada pelo Conde Julião, possivelmente seu parente, e ambos resolveram pedir ajuda aos muçulmanos para consolidarem no trono de Toledo o jovem Ágila.
 
 
Em Abril de 711, Tarik Ibn Ziyad, governador de Tânger e comandante de Mussa Ibn Nusayr (698-714), desembarca à frente dos seus homens no monte que em sua honra se passará a chamar Jabal Tariq (Gibraltar), e derrota o rei Rodrigo na batalha do rio Guadarranque, entre a torre de Cartagena e Gibraltar, segundo algumas versões, a batalha dá-se junto ao rio Guadalete. A vitória árabe sobre Rodrigo vai derrubar toda a organização central de defesa do estado visigodo, e em vez de uma simples intervenção estrangeira num confronto civil, como pretendiam Oppas e Julião, os muçulmanos iniciam uma conquista em toda a linha, acabando em poucos anos com a escassa resistência apresentada pelos antigos senhores. Toledo perde o seu título de capital do império, que passaria para Córdoba, e a Espanha passará a designar-se Al Andaluz.Os árabes, ao conquistarem a Península não foram influenciados pelo cultura local, continuaram mantendo suas raízes, seguiram sendo muçulmanos, regendo-se pelas leis do Alcorão e pelos ensinamentos do profeta Muhammad. A religião dos povo era-lhes indiferente, mas não houve perseguições nem conversões forçadas. A tolerância do estado islâmico permitiu a sobrevivência das raízes clássicas e cristãs durante vários séculos. A chegada dos árabes muçulmanos foi saudada pelos judeus, que tinham sido perseguidos nas últimas décadas do reino visigodo. As determinações de sucessivos concílios da Igreja peninsular tinham contribuído para a discriminação deste segmento populacional: o III Concílio de Toledo determinou o batismo forçado de crianças filhas de casamentos entre judeus e cristãos; o XVI proibiu os judeus de praticarem o comércio com cristãos, o que provocou a ruína de muitas famílias, e o XVII condenou-os à escravatura sob o pretexto de conspirarem, junto com os judeus do norte de África, para a queda do reino visigodo.
 
O geógrafo árabe Ibn Haukal Annassibi, ao visitar a Andaluzia, referiu-se à região nos seguintes termos: "Andaluz é uma ilha extensa, medindo um pouco menos de um mês de marcha, de comprimento, e vinte e tantos dias de largura. É rica em rios e mananciais, é repleta de árvores e plantas de todo feitio e é suprida com tudo que acrescente conforto à vida; os escravos são gentis e podem ser encontrados por um preço acessível por conta de sua grande quantidade; a comida é excessivamente farta e barata, devido também à fertilidade da terra, que rende toda a espécie de grãos, vegetais e frutas, assim como à quantidade e qualidade de suas pastagens, nas quais inúmeros rebanhos pastam..."
 
E Ibn Abd Al-Munin em um texto do final do século XIII) disse:  "O país do Andaluz é, como dissemos, de forma triangular. O mar rodeia-o pelos seus três lados: ao sul, o Mediterrâneo; a ocidente, o oceano Atlântico; ao norte, o mar dos Ingleses, que se contam entre os cristãos. O comprimento do Andaluz, desde a igreja do Corvo (Cabo de S. Vicente), que está situada no Atlântico, até ao monte chamado Templo de Vénus (Port Vendres), é de 1100 milhas. A sua largura é de 600 milhas."
 
Distinguem-se os seguintes períodos na história política do al-Andaluz:
 
Período da conquista territorial e dos governadores, durante o qual o al-Andaluz dependia do califado omíada de Damasco (711–756)
Emirado de Córdoba (756–929)
Califado de Córdoba (929–1031)
Primeiro período de reinos de taifas (1031–1090)
Período almorávida (1090–1146)
Segundo período de reinos de taifas (1145–1150)
Período almóada (1146–1228)
Terceiro período de reinos de taifas (1228–1262)
Reino nasrida de Granada (1238–1492)
 
 

A HISTÓRIA DA ANDALUZIA 

 

Em meados do século VIII, os mulçumanos já tinham se estabelecido na Andaluzia e o príncipe Abdul Rahman I contando com o apoio de uma das tribos muçulmanas da península, em 755 se proclamou Emir de Córdoba, independente do Califado Abássida de Damasco. Na primeira parte do século X, um do seus sucessores, Abul Rahman III, ampliou o emirado Al-Andaluz e tornou-se o primeiro Califa da Espanha. A proclamação do califado tinha um duplo objetivo. Internamente, os omíadas queriam fortalecer o reino peninsular, e externamente, queriam consolidar as rotas comerciais do Mediterrâneo, garantir uma relação com Bizâncio oriental e assegurar o suprimento de ouro. Melilla foi integrada ao califado em 925 e, em meados desse mesmo século, os omíadas controlavam o triângulo formado pela Argélia, Siyimasa e Atlântico. O poder andaluzo do califado também se estendeu até a Europa ocidental e, em 950, o império germano-romano estava trocando embaixadores com o califado de Córdoba. Alguns anos antes, Hugo de Arles tinha pedido ao poderoso califado espanhol um salvo-conduto para seus navios mercantes navegaram o Mediterrâneo.
 
As bases da hegemonia andaluza estavam assentadas na extraordinária capacidade econômica proveniente de um comércio importante, uma indústria desenvolvida e um conhecimento agrícola revolucionário para a época. A sua economia estava baseada na moeda e a emissão de dinheiro desempenhou um papel fundamental para o esplendor financeiro. A moeda de ouro de Córdoba tornou-se a moeda principal do período. Assim, o califado de Córdoba foi a primeira economia urbana e comercial que floresceu na Europa, depois do desaparecimento do império romano. A capital, e a mais importante cidade do califado, Córdoba, tinha uma população de 400.000 habitantes. A fragmentação do califado aconteceu no final da primeira década do século XI, o califado dividiu-se em 39 taifas (reinos insignificantes), um nome que foi incorporado pelo vocabulário espanhol como sinônimo de ruína, em razão da fragmentação política da península. Esta divisão facilitou novas invasões e o consequente enfraquecimento da região. Em meados do século XIII, a Espanha islâmica estava reduzida à dinastia nasarida, em Granada, que resistiu aos constantes ataques dos cristãos até 1492, quando, então, foi conquistada. A Andaluzia foi uma civilização que irradiou uma personalidade própria, tanto para o ocidente quanto para o oriente. Situada na terra dos encontros, dos cruzamentos culturais e de fecunda miscigenação, al-Andaluz acabou sendo esquecida, depois de todo seu esplendor, tanto pela Europa como pelo universo muçulmano, como uma lenda que não tivesse pertencido a nenhum   dos dois mundos.  A seguir, as etapas principais de seus oito séculos de existência.
 

 

O Emirado Omíada
 
 Mapa do Emirado de Córdoba
 
Al-Andaluz, ''terra dos vândalos'', em árabe, assim é conhecida a região da península ibérica ocupada pelos muçulmanos, a partir do século VIII até ao final do século XV, e que chegou a compreender grande parte do território espanhol. A extensão do estado islâmico na região conhecida por al-Andaluz, sofreu alterações no decorrer do tempo, pois, à medida em que se modificavam as fronteiras, tanto hispano-muçulmanos como castelano-aragoneses avançavam conquistando território.O processo de expansão do Islam, em seus primórdios, tomou a direção do ocidente:  Magrebe, Espanha e parte da Itália e França. Durante o século VIII, vindos do norte da África, uma série de grupos e famílias nobres árabes oriundas do oriente, e de grupos bérberes procedentes do Magrebe, pouco a pouco foram se assentando em terras andaluzas. Este processo, no entanto, não significou a ruptura com a cultura então reinante, pelo contrário, ambas se imbricaram, dando um resultado muito peculiar e deslumbrante, e que diferenciou, de forma bem característica, o Islam ocidental do oriental. A fusão entre os árabo-bérberes e os hispano-godos deu-se com muita naturalidade. 
 
Durante a segunda metade do século VIII, começaram as dissenções no império muçulmano. O fim da dinastia omíada em Damasco, e a ascensão dos abássidas em Bagdá, mudaria o rumo dos acontecimentos. A revolução abássida de 750, destruiu o poder omíada em quase todo o mundo muçulmano. Durante a revolução, Abdul Rahman, neto de um ex-califa omíada, conseguiu escapar de Damasco para a Espanha, estabelecendo lá seu próprio califado em nome dos omíadas. Esta dinastia manteve o controle da Espanha por 300 anos, até que os bérberes almorávidas, vindos do norte da África, tomassem o poder no século XI. Esta casa omíada independente se intitulava Emirado, ao invés de califado, uma vez que seus governantes não acreditavam que pudesse haver mais de um califa. Esta foi a primeira instância regional de separação do califado abássida em Bagdá. Os abássidas fizeram inúmeras tentativas para retomar o controle da Espanha mas não conseguiram. A Espanha permaneceu sob o governo de dinastias locais até a completa rendição aos reis católicos, no final do século XV. O governo omíada na Espanha marcou profundamente a cultura espanhola - um legado de arte, arquitetura, língua e tradições que permanecem até hoje. Abdul Rahman transformou Córdoba em um centro de referência, a ponto de ela se tornar uma das mais importantes cidades da Europa e do mundo islâmico da época. A Grande Mesquita foi construída por ele em 785 e é um dos exemplos mais impressionantes do legado islâmico na Espanha.De 756 a 929, oito emires se sucederam, numa época brilhante do ponto de vista cultural, até que Abdul Rahman III decidiu fundar um califado, declarando-se o Emir al-Muminin (príncipe dos crentes), e se outorgando, além do poder temporal, o espiritual, sobre a ummah (comunidade muçulmana). Este califa, e seu sucessor, al-Hakam II, soube favorecer a integração étnico-cultural entre os bérberes, árabes, hispânicos e judeus. Ambos pactuaram com os cristãos, construíram e ampliaram numerosos edifícios, alguns tão notáveis como a Mesquita de Córdoba - e se cercaram do que havia de mais erudito na época. Mantiveram contatos comerciais com Bagdá, França, Túnis, Marrocos, Bizâncio, Itália e até a Alemanha.

Emires de Córdoba (756–929):

  • AbdRahman I (Abderramão I) - 756–788
  • Hisham I - 788–796
  • al-Hakam I - 796–822
  • AbdRahman II (Abderramão II) - 822–852
  • Mohammad I - 852–886
  • Al-Mundhir - 886–888
  • Abdallah ibn Mohammad - 888–912
  • AbdRahman III (Abderramão III) - 912–929 (se declarou "califa")
 
 
 
 O Califado Omíada
 
Mapa do Califado de Córdoba
 
 
O Califado de Córdoba (929 – 1031) foi a forma de governo islâmico que dominou a maior parte da Península Ibérica e do Norte de África com capital em Córdoba. O Califado sucedeu ao Emirado Independente instaurado por Abdrahman I em 756. O título de califa foi reclamado por Abdrahman III a 16 de Janeiro de 929, que já era reconhecido como emir de Córdoba. Todos os califas de Córdoba foram membros da dinastia omíada, a mesma que detinha o título de emir de Córdoba e governava praticamente o mesmo território desde 756. O Califado de Córdoba foi a época de máximo esplendor político, cultural e comercial de Al-Andaluz. O Califado perdurou oficialmente até 1031, ano em que foi abolido, após um período de revoltas, fragmentando-se em múltiplos reinos conhecidos como Taifas. Os reinados de Abdrahman III (929-961) e o seu filho al-Hakam II (961-976) constituem o período de apogeu do califado omíada, em que se consolida o aparato estatal de Córdoba. A política exterior concentrou-se em três direções: os reinos cristãos do norte peninsular, o norte da África, e o Mediterrâneo. A influência do Califado sobre os reinos cristãos do norte chegou a ser tal que, entre 951 e 961, os reinos de Leão, Navarra e Castela, e o Condado de Barcelona, lhe rendiam tributo. As relações diplomáticas foram intensas. A Córdoba chegaram embaixadores do conde de Barcelona Borrell, de Sancho II de Navarra, de Elvira Ramírez de Leão, de García Fernández de Castela e do conde Fernando Ansúrez, entre outros. A política do califado no Magrebe foi igualmente intensa, particularmente durante o reinado de al-Hakam II. Eventos importantes como a conquista de Melilha, Tanger e Ceuta. Após a tomada de Melilha em 927, em meados do século X, os omíadas controlaram o triângulo formado por Argel, Siyilmasa e o oceano Atlântico. Um terceiro objetivo político do califado esteve orientada para o Mediterrâneo. O Califado manteve relações com o Bizâncio de Constantino VII, mantendo emissários em Constantinopla. O poder do califado estendia-se também para norte, e ao redor do ano 950 o Sacro Império Romano-Germânico intercambiava embaixadores com Córdoba. Igualmente, alguns anos antes, Hugo de Arles solicitara salvo-condutos para que os seus barcos mercantes pudessem navegar pelo Mediterrâneo, dando ideia portanto do poder marítimo que Córdoba detinha. A partir de 942 foram estabelecidas relações mercantis com a República amalfitana, e no mesmo ano foi recebida uma embaixada da Sardenha.O apogeu do califado manifestava-se na sua capacidade de centralização fiscal, que geria as contribuições e rendas do país: impostos territoriais, dízimos, arrendamentos, pedágios, impostos de capitação, taxas alfandegárias sobre mercadorias, bem como os direitos percebidos nos mercados sobre joias, aparelhos de navios, peças de ourivesaria, etc. A opulência do califado durante estes anos fica refletida na palavras do geógrafo Ibn Hawqal: “A abundância e a despreocupação dominam todos os aspectos da vida; o gozo dos bens e os meios para adquirir a opulência são comuns aos grandes e aos pequenos, pois estes benefícios chegam até mesmo os operários e artesãos, graças às imposições leves, à condição excelente do país e à riqueza do soberano; além disso, este príncipe não faz sentir o gravoso das prestações e dos tributos.”  
                                         
Para realçar a sua dignidade e seguindo o exemplo de outros califas anteriores, Abdrahman III edificou a sua própria cidade palaciana, Medina Azahara. Esta foi a etapa da presença islâmica na península Ibérica de maior esplendor, embora de curta duração, pois na prática terminou em 1009 com a fitna (guerra civil) pelo trono entre os partidários do último califa legítimo, Hisham II, e os sucessores do seu primeiro-ministro ou "hájibe" Almansor. Oficialmente, porém, o califado continuou até 1031, com Hisham III, ano em que foi abolido dando lugar à fragmentação do estado omíada em múltiplos reinos conhecidos como Taifas. A economia do Califado baseou-se numa considerável capacidade econômica -fundada num comércio muito importante-, uma indústria artesã muito desenvolvida, e técnicas agrícolas mais desenvolvidas que em qualquer outra parte da Europa. Baseava a sua economia na moeda, cuja cunhagem teve um papel fundamental no seu esplendor financeiro. A moeda de ouro do Califado tornou-se das mais importantes à época, sendo provavelmente imitada pelo Império Carolíngio. À cabeça da rede de urbes estava a capital, Córdoba, a cidade mais importante do Califado, que superava os 250 000 habitantes em 935 e aflorou os 500 000 no ano 1000 (alguns historiadores ainda falam de 1 000 000 de habitantes, baseando-se em recentes achados arqueológicos de dimensões superiores às acreditadas, confirmando muitas crônicas até então tidas por exageradas), sendo durante o século X uma das maiores cidades do Mundo e um centro financeiro, cultural, artístico e comercial de primeira ordem. Outras cidades importantes foram Toledo (37 000), Almería (27 000), Zaragoza (17 000) e Valência (15 000). Abdrahman III não somente fez de Córdoba o centro nevrálgico de um novo império muçulmano no Ocidente, mas converteu-a na principal cidade da Europa Ocidental, rivalizando ao longo de um século com Bagdá e Constantinopla (capitais do Califado Abássida e do Império Bizantino, respectivamente) em poder, prestígio, esplendor e cultura. Segundo fontes árabes, sob o seu governo, a cidade alcançou o milhão de habitantes, que dispunham de mil seiscentas mesquitas, trezentas mil moradias, oitenta mil lojas e inúmeros banhos públicos. Este califa omíada foi também um grande impulsionador da cultura: dotou Córdoba com cerca de setenta bibliotecas, fundou uma universidade, uma escola de medicina e outra de tradutores do grego e do hebraico para o árabe. Fez ampliar a Mesquita de Córdoba, reconstruindo as ameias, e mandou construir a extraordinária cidade palaciana de Madinat al-Zahr, na qual residiu até à morte. O aspecto do desenvolvimento cultural não é menos relevante com a chegada ao poder do califa al-Hakam II, a quem é atribuída a fundação de uma biblioteca que teria atingido os 400 000 volumes. Talvez isso provocou a assunção de postulados da filosofia clássica -tanto grega quanto latina- por parte de intelectuais da época como foram Ibn Masarra, Ibn Tufail, Averróis e o judeu Maimônides, embora os pensadores de Al-Andalus se destacassem, sobretudo, em medicina, matemáticas e astronomia.
 
Califas de Córdoba (929–1031)
 
Este califado se resumia à Espanha e partes de Marrocos:
  • Abd-ar-Rahman III - 929–961
  • Al-Hakam II - 961–976
  • Hisham II al-Hakam - 976–1009
  • Muhammad II - 1009
  • Sulayman ibn al-Hakam - 1009–1010
  • Muhammad II, restaurado - 1010
  • Hisham II al-Hakam, restaurado - 1010–1013
  • Sulayman ibn al-Hakam, restaurado - 1013–1016
  • Ali ibn Hammud al-Nasir (Hamúdida) - 1016-1018
  • Al-Qasim ibn Hammud al-Ma'mun (Hamúdida) - 1018-1021
  • Abd ar-Rahman IV - 1021–1022
  • Yahya ibn Ali al-Mu'tali (Hamúdida) - 1021-1023
  • Al-Qasim ibn Hammud al-Ma'mun (Hamúdida) - 1023
  • Abd ar-Rahman V - 1022–1023
  • Muhammad III - 1023–1024
  • Yahya ibn Ali al-Mu'tali (Hamúdida) - 1025-1026
  • Hisham III - 1027–1031

 

Reinos de Taifas e Dinastias Norte-africanas
 
 

Em 1031, o califado foi, abolido e todas as grandes famílias árabes, bérberes e muwaladis, cristãos hispânicos que abraçaram o Islam durante o governo muçulmano, queriam, de uma forma ou de outra, usufruir das benesses do estado, ou pelo menos, de suas cidades. Surgiram então, por toda parte, os reis de taifas, que se elevaram à categoria de donos e senhores dos principais lugares do território andaluz. Este desmembramento representou o começo do fim da Andaluzia e, enquanto se enfraquecia cada vez mais, os cristãos se organizavam para combater os muçulmanos. A primeira grande vitória sobre o os muçulmanos na península foi protagonizada por Alfonso VI, quando, em 1085, tomou a importante cidade de Toledo. No entanto, nesta época surgiram figuras importantes no campo do saber e da arquitetura, com as construções suntuosas de palácios, almunias (hortos) e mesquitas.Enquanto isso, ao final do século XI, no Magrebe ocidental, atual Marrocos, surgia um novo movimento político e religioso no seio de uma tribo bérbere do sul, os lamtuna, que fundaram a dinastia dos almorávidas. Em pouco tempo, a austeridade e pureza religiosa deles convenceu grande parte da população desencantada e, com o seu apoio, empreenderam uma série de campanhas. Conseguiram formar um império que compreenderia parte do norte da África e da Andaluzia, que havia pedido ajuda a eles para frear o avanço cristão. Chefiados por Ibn Tashfim, os almorávidas chegaram na península, e infligiram uma grande derrota às tropas de Alfonso VI, em Sagrajas. De imediato, conseguiram extinguiram os reinos de taifas e centralizaram o governo da Andaluzia, e a nova situação deu um incremento ao bem-estar social e econômico. Os cristãos estavam conseguindo, enquanto isso, importantes avanços. Alfonso I, de Aragão, conquistou Zaragoza, em 1118. Ao mesmo tempo, os almorávidas viam ameaçada a sua própria supremacia por um novo movimento religioso surgido no Magrebe: os almoadas. Esta nova dinastia surgiu numa tribo bérbere, procedente do Atlas, que, liderada por Ibn Tumart, logo se organizou usando argumentos semelhantes de pureza e revitalização religiosa. Foram grandes construtores e também se cercaram dos melhores literatos e cientistas da época. No entanto, da mesma forma que os almorávidas, acabaram por sucumbir ao relaxamento dos costumes, que quase sempre caracterizou Al-Andalus.

 

 

 Os Almorávidas

Reinado Almoravida
 
A dinastia dos Almorávidas (al-murabitin), cuja designação pode ter advindo do nome do local (ribat) onde se reuniam os partidários de Yahya bin Ibrahim e Abdallah bin Yasin, surgiu no Magrebe, no século XI e esteve sob alçada política dos califas abássidas. O fundador da cidade de Marraquexe em 1060, e primeiro a atingir o poder, foi Yusuf bin Tachfin. Os Almorávidas eram provenientes do Sul de Marrocos e nómadas, caracterizando-se por serem acérrimos partidários da fação sunita e de Yahya bin Ibrahim e Abdallah bin Yasin, que defendiam uma reforma dos costumes muçulmanos ocidentais, considerados degradados. Os Almorávidas tiveram em Yahya ibn Umar o seu primeiro chefe militar, sucedido pelo seu irmão, Abu Bakr ibn Umar, que conquistou o Marrocos com Yusuf bin Tachfin. A convicção religiosa aliada à vontade de adquirir poder político levou-os à expansão a partir do Magrebe até conseguirem se afirmar não só nesta zona como também em Marrocos. Acabaram por se estabelecer também na Península Ibérica, concretamente na Andaluzia, na sequência de um apelo que lhes foi feito em 1086 pelo príncipe de Sevilha, para conseguir reforços na luta dos príncipes muçulmanos contra os Cristãos. Foi na sequência deste chamado que se deu a batalha de Zalaca (1086), da qual saiu derrotado o rei Afonso VI. Conseguindo reunir sob o seu poder uma série de reinos de pequena dimensão (taifas), adquiriram uma preponderância que lhes permitiu governar a seu bel-prazer um território que se estendia do Sul da Península até ao rio Tejo. O seu ascendente terminou quando, no século XII, os Almóadas tomaram o poder sobre os territórios árabes do Magrebe e de Espanha, inaugurando uma nova era, em1162, com a subida ao poder de Abd el-Mumin.
 
 
 
Os Almóadas
 
Reinado Almoada 
 
O Califado Almóada foi uma potência religiosa berbere governada pela quinta dinastia moura, tendo se destacado do século XII até meados do século XIII. O nome latino deriva da corruptela do árabe "os monoteístas" ou "os unitaristas", que alude ao fundamentalismo do movimento. Os almoádas surgiram em Marrocos no século XII, descontentes com o insucesso dos almorávidas em revigorar os estados muçulmanos na península Ibérica, bem como em suster a reconquista cristã. Tendo conquistado o Norte de África até ao Egito, conquistaram sucessivamente grande parte de Al-Andalus.Os almóadas então trataram de unificar as taifas e formar um governo islâmico que pudesse fazer frente aos cristãos. Em pouco mais de trinta anos, os almóadas conseguiram forjar um poderoso califado que se estendia desde Santarém, no que é atualmente Portugal, até Trípoli na atual Líbia, incluindo todo o norte de África e o sul da península Ibérica. Em 1170 os almóadas transferiram a sua capital para Sevilha, onde fundaram a grande mesquita, posteriormente convertida em catedral cristã. A torre da mesquita, a Giralda foi construída em 1184 para assinalar a ascensão de Abu Yusuf Ya'qub al-Mansur (Almançor). Foi durante este período que ressurgiram os estudos filosóficos com Averróis e ibn Tufail. No entanto, desde Yusuf II, tratavam os seus domínios fora de Marrocos como províncias e governavam os seus correligionários na península Ibérica e no restante do norte de África através de governadores locais. Os príncipes almóadas tiveram uma carreira mais longa e marcante do que os seus antecessores almorávidas. Yusuf I (1163–1184) e Almançor (1184-1199), sucessores de Abd al-Mu'min, eram homens fortes. Almançor (Ya'qub al-Mansur) era um homem de grande cultura, que escrevia em bom estilo árabe e protegia o filósofo Averróis. O seu título al-Mansur, "O Vitorioso," deve-se à derrota que infligiu a Afonso VIII de Castela, em 1195, na Batalha de Alarcos. As construções almóadas caracterizam-se pela simplicidade e austeridade, um reflexo da vida difícil dos nómadas do Magrebe. Apesar disso, muitos edifícios têm um tamanho considerável. Exemplos clássicos deste movimento são a Mesquita de Tinmel, a Torre del Oro e a Giralda, em Sevilha, a mesquita Kutubiyya de Marraquexe, a Grande Mesquita de Taza e a Torre Hassan em Rabat.
 
1212 marcou o início da decadência do Califado Almóada. As forças de Muhammad an-Nasir (1199–1214), sucessor de al-Mansur, depois de um avanço inicialmente bem sucedido para norte, foram aniquilados por uma aliança de tropas cristãs na Batalha de Navas de Tolosa na Sierra Morena. Essa batalha destruiu o domínio almóada. Em 1216-7 os merínidas enfrentam os almóadas em Fez. ibn Hud proclama-se emir de Múrcia em 1227, fazendo frente aos almoádas, e Tunes torna-se independente três anos mais tarde. Muhammad ibn al-Ahmar proclama-se emir de Arjona, Jaén, Guadix e Baza em 1232. Cinco anos depois é reconhecido como emir de Granada, dando início à dinastia nasrida. Os almóadas encorajaram o estabelecimento de cristãos até mesmo em Fez, e depois da Batalha de Navas de Tolosa, ocasionalmente faziam alianças com os reis de Castela. Na África conseguiram expulsar os exércitos dos reis normandos da Sicília das cidades costeiras. A história do seu declínio é diferente da dos almorávidas. Não foram tomados por um poderoso movimento religioso, simplesmente foram perdendo territórios com a revolta de tribos e cidades.
 

 

A Dinastia Nasari

Quando parecia que tudo estava perdido e o avanço de Castela era inexorável, surgiu em Jaén uma nova dinastia, a nasri (nasari), fundada por Al-Ahmar ibn Nasr, o célebre Abenamar das histórias, que havia de dar um novo alento aos muçulmanos. Com sede em Granada, seu reino compreendia as regiões granadina, almeriense e malaguenha, e parte da murciana.  Cercados ao norte pelos reis cristãos, e ao sul pelos sultões marinidas do Marrocos, os nasaris estabeleceram um reino cercado de instabilidades. Apesar de tudo, Granada foi uma grande metrópole em seu tempo, que acolhia muçulmanos de todas as partes do mundo e onde se construíram palácios suntuosos - a Alhambra - mesquitas e banhos públicos. Em meados do século XIII, tudo o que restava da Espanha islâmica era o reino de Granada, na costa sul da península ibérica. Os cristãos tinham reconquistado Córdoba, em 1236, e Sevilha, em 1248, e, em breve toda a península seria conquistada. O ponto decisivo chegou ao final do século XV, com o casamento de Fernando de Aragão e Isabela de Castela e Leon, que unificou a Espanha e fortaleceu os exércitos cristãos. Em 1492, os cristãos finalmente derrotaram os muçulmanos. O rei Bobadilha, (Abu AbdAllah), capitulou ante os reis católicos, entregando-lhes Granada. Se bem que as condições da rendição tenham sido generosas por parte dos vencedores, não demoraram muito a ser esquecidas, começando uma perseguição e aculturação sem tréguas dos mouriscos que permaneceram sob o domínio cristão, até que aconteceram as expulsões maciças a partir de 1610. Os 800 anos de ocupação da península ibérica pelos muçulmanos deixaram marcas indeléveis na cultura espanhola, que absorveu muito das primeiras influências islâmicas e que podem ser vistas hoje na arquitetura, língua e tradições da Espanha.
 
 
 
O Legado Cientifico e Cultural da Andaluzia
 
 
Para a civilização ocidental, as contribuições da Espanha islâmica foram de valor inestimável. Quando os muçulmanos entraram no sul da Espanha - que eles chamavam al-Andaluz - os bárbaros do norte tinham devastado grande parte da Europa e a civilização clássica greco-romana já se tinha perdido. A Espanha islâmica, então, tornou-se a ponte por intermédio da qual todo o legado científico, tecnológico e filosófico do período abássida, juntamente com as realizações da própria Andaluzia, foi passado para a Europa. No primeiro século do governo muçulmano na Espanha, a cultura foi fortemente influenciada pela  próspera civilização que se desenvolveu em Bagdá. Mas, durante o reinado de Abd al-Rahman III (912-961), a Espanha islâmica começou a ter uma identidade própria. Abd al-Rahman III era um apaixonado tanto pela religião quanto pelas ciências seculares. Ele também estava determinado a mostrar ao mundo que sua corte em Córdoba igualava-se, em grandeza, à dos califas de Bagdá. Sem poupar esforços, tempo ou dinheiro, ele importou livros de Bagdá e recrutou sábios, oferecendo incentivos. Em decorrência, sábios, poetas, filósofos, historiadores e músicos logo começaram a emigrar para a Andaluzia e toda uma infraestrutura de bibliotecas, hospitais, instituições de pesquisa e centros de estudos islâmicos surgiu, criando a tradição intelectual e o sistema educacional que tornariam a Espanha proeminente pelos quatro séculos seguintes. Um dos primeiros sábios a chegar à Andaluzia foi 'Abbas ibn Firnas, que veio para ensinar um ramo da teoria matemática, e atualizar a corte de 'Abd al-Rahman a respeito dos progressos neste campo em Bagdá. Mas Ibn Firnas não era um homem limitado a um único campo de estudo. Logo começou a investigar a mecânica do voo. Construiu um par de asas armadas numa estrutura de madeira e fez a primeira tentativa de voar, antecipando-se a Leonardo da Vinci em mais ou menos seiscentos anos. Mais tarde, tendo sobrevivido ao experimento com um ferimento nas costas, ele construiu um planetário. Não só era mecanizado como também simulava fenômenos meteorológicos, como os raios e trovões.
 

 
Da mesma forma que nos centros de estudos em Bagdá, o interesse da Espanha islâmica na matemática, astronomia e medicina foi sempre muito grande - em parte por causa de sua utilidade óbvia. No século X, os matemáticos de Córdoba começaram a dar suas contribuições pessoais. O primeiro matemático e astrônomo de Andaluzia foi Maslamah al-Majriti, que morreu em 1008. Ele foi precedido por cientistas competentes - homens como Ibn Abi 'Ubaydah, de Valência, um notável astrônomo do século X. Mas, Majriti foi especial. Escreveu inúmeros trabalhos sobre matemática e astronomia, estudou e elaborou a tradução dos trabalhos de Ptolomeu e ampliou e corrigiu as tabelas astronômicas do famoso al-Khwarazmi. Ele também compilou as tabelas de conversão, nas quais ele relacionou as datas do calendário persa com as datas da Hégira, a fim de que, pela primeira vez, os eventos do passado persa pudessem ser datados com precisão. Al-Zarqali, conhecido no ocidente com Arzaquel, foi outro notável matemático e astrônomo que viveu em Córdoba, no século XI. Combinando o conhecimento teórico com a habilidade técnica, ele se sobressaiu na construção de instrumentos para uso astronômico e de um relógio d'água, capaz de determinar as horas do dia e da noite e de indicar os dias dos meses lunares. Também contribuiu para as famosas Tabelas Toledanas, uma compilação apuradíssima de dados astronômicos. Arzaquel foi famoso, ainda, por causa de seu Livro das Tabelas. Muitas dessas tabelas haviam sido compiladas antes dele, mas o seu é um almanaque contendo tabelas que permitem encontrar os dias em que começam os meses coptas, romanos, lunares e persas, outras tabelas que dão a posição dos planetas a qualquer tempo e ainda outras que facilitam a previsão dos eclipses lunares e solares. Também compilou tabelas valiosas de latitude e longitude. 
 
Um outro sábio importante foi al-Bitruji, que desenvolveu uma nova teoria do movimento estelar, baseado no pensamento de Aristóteles, em seu Livro da Forma, um trabalho que teve mais tarde grande circulação no ocidente. Os nomes de muitas estrelas ainda são aqueles dados pelos astrônomos muçulmanos, como Altair (deal-tair, "aviador"), Betelgeuse (de bait al-jawza, "a casa dos gêmeos"), além de outros termos ainda em uso até hoje, como zenith, nadir e azimut, que também são derivados do árabe, refletindo, assim, o trabalho dos astrônomos muçulmanos de Andaluzia e seu impacto no Ocidente. Cientistas da Espanha islâmica também contribuíram para a medicina, a ciência muçulmana por excelência. O interesse na medicina estava presente desde os primeiros tempos do Islam (o próprio Profeta afirmou que havia um remédio para cada doença), e embora os maiores clínicos muçulmanos estivessem em Bagdá, os de Andaluzia também deram as suas importantes contribuições. Ibn al-Nafs, por exemplo, descobriu a circulação pulmonar do sangue. Durante o século X, em especial, a Andaluzia produziu um grande número de excelentes clínicos, alguns dos quais estudaram os trabalhos médicos gregos traduzidos pela famosa Casa da Sabedoria, em Bagdá. Entre eles está Ibn Shuhayd, que numa obra fundamental recomendou o uso de drogas somente no caso de o paciente não responder à dieta e recomendava o uso de drogas simples somente nos casos mais sérios. Uma outra figura importante foi Abu al-Qasim al-Zahrawi, o mais famoso cirurgião da Idade Média. Ele foi o autor do Tasrif, um livro que, traduzido para o latim, tornou-se texto médico obrigatório nas universidades européias no final da Idade Média. Sua seção sobre cirurgia contém ilustrações de instrumentos cirúrgicos de desenho funcional e de grande precisão.

 
 
Outros capítulos descrevem cirurgias odontológicas, oftálmicas e amputações, e o tratamento de feridas e fraturas. Ibn Zuhr, conhecido como Avenzoar, foi um clínico habilidoso e foi o primeiro a descrever abcessos pericardiais e a recomendar a traqueostomia quando necessário, e Ibn Rushd escreveu um livro sobre teorias e preceitos médicos. O último dos grandes clínicos andaluzes, Ibn al-Khatib, também famoso historiador, poeta e estadista, escreveu um livro importante sobre a teoria do contágio, onde ele diz: "A infecção fica clara para o investigador quando ele, não estando em contato, permanece a salvo", e descreveu como se dá a transmissão através das roupas, recipientes e brincos. A Espanha islâmica também trouxe contribuições para a ética médica e a higiene. Um dos mais eminentes teólogos e juristas, Ibn Hazm, insistia que as qualidades morais eram obrigatórias para qualquer clínico. Um médico, escreveu ele, deve ser gentil, compreensivo, amigo e capaz de suportar insultos e a crítica adversa. Além disso, deve ter cabelos e unhas curtos, vestir roupas limpas e comportar-se com dignidade. Os cientistas andaluzes também se interessaram por botânica. Ibn al-Baytar, por exemplo, o mais famoso botânico andaluz, escreveu um livro chamado Drogas Simples e Alimento, um compêndio em ordem alfabético das plantas medicinais, muitas das quais eram nativas da Espanha e do norte da África e que levou toda a sua vida coletando. Em outro tratado, Ibn al-'Awwam listou cem espécies de plantas e deu instruções precisas a respeito de seu cultivo e uso. Ele escreveu, por exemplo, sobre como enxertar plantas, produzir híbridos, acabar com a ferrugem e outras pragas e como fazer perfumes. 
 

Um outro importante campo de estudo na Andaluzia, foi o estudo da geografia. Em parte por questões de ordem econômica e política, mas, principalmente, por uma curiosidade sobre o mundo e seus habitantes, os sábios da Espanha islâmica começaram com os trabalhos de Bagdá e prosseguiram por conta própria, acrescentando outras contribuições, como a geografia básica da Andaluzia, de Ahmad ibn Muhammad al-Razi, e uma descrição da topografia do norte da África, de Muhammad ibn Yusuf al-Warraq. Um outro geógrafo foi al-Bakri, um ministro importante da corte de Sevilha, mas também um linguista ilustre e literato. Um de seus dois mais importantes trabalhos sobre geografia é voltado para a geografia da península arábica. Ele arrumou em ordem alfabética e listou os nomes das cidades, vilas, wadis e monumentos que ele coletou de hadices e das estórias. O outro foi uma enciclopédia do mundo todo, arranjado por ordem de país, onde cada um era precedido por uma breve introdução histórica. Incluía descrição dos povos, costumes e clima de cada país, os principais dados, as maiores cidades. No estudo da geografia, figuras como Ibn Jubayr, um viajante andaluz, e o mais famoso viajante de todos, Ibn Battuta, também deram importantes contribuições. Nascido no norte da África, então dentro da esfera cultural da Espanha islâmica, Ibn Battuta viajou por 28 anos e escreveu um livro sobre suas viagens, que se mostrou uma rica fonte de consulta tanto para historiadores como para geógrafos. Incluía informações preciosas sobre os povos, lugares, navegação, rotas de caravanas, estradas e hospedagens. Mas, o mais famoso geógrafo dessa época foi Al-Idrisi, que estudou em Córdoba. Depois de viajar muito, al-Idrisi se estabeleceu na Sicília e escreveu uma geografia sistemática do mundo, que ficou conhecido como o Livro de Roger, por causa de seu padrinho Roger II, o rei normando da Sicília. As informações contidas no Livro de Roger também foram gravadas num planisfério de prata, um mapa em forma de disco, que foi uma das maravilhas da época. 
 
Muhammad Al-Idrisi (1110 - 1165 ou 1166), cujo nome completo é Abu Abd Allah Muhammad al-Idrisi al-Qurtubi al-Hasani al-Sabti, foi um cartógrafo árabe muçulmano da Idade Média, famoso pela qualidade de seus mapas, tanto no desenho quanto na precisão. Nascido provavelmente em Ceuta, em 1154 confeccionou um grande mapa-múndi orientado em sentido inverso ao utilizado atualmente, conhecido como a Tabula Rogeriana, acompanhado por um livro, denominado Geografia. O rei Rogério II da Sicília deu a estas obras o nome conjunto de Nuzhat al-Mushtak, ainda que Al-Idrisi as tenha batizado como Kitab Rudjar ("O Livro de Rogério").
Muhammad Al-Idrisi (1110 - 1165 ou 1166), foi um cartógrafo árabe muçulmano da Idade Média, famoso pela qualidade de seus
mapas, tanto no desenho quanto na precisão. Nascido provavelmente em Ceuta, em 1154 confeccionou um grande mapa-múndi
orientado em sentido inverso ao utilizado atualmente, conhecido como a Tabula Rogeriana, acompanhado por um livro, denominado
Geografia. O rei Rogério II da Sicília deu a estas obras o nome conjunto de Nuzhat al-Mushtak, ainda que Al-Idrisi as tenha batizado
como Kitab Rudjar ("O Livro de Rogério").
 
Inúmeros sábios na Andaluzia também se devotaram ao estudo da história e das ciências linguísticas, a principal das "ciências sociais" cultivada pelos árabes. Ibn al-Khatib, por exemplo, se distinguiu em quase todos os ramos do ensino, produziu mais de 50 obras sobre viagens, medicina, poesia, música, política e teologia, assim como escreveu a mais bela história sobre Granada que chegou até nós. O espírito mais original do período, no entanto, foi indubitavelmente Ibn Khaldoun, o primeiro historiador a desenvolver   e a explicar as leis gerais que regem a ascensão e declínio das civilizações. Em seus Prolegômenos, uma introdução à enorme história universal de sete volumes - uma introdução maior do que alguns dos volumes -, Ibn Khaldun abordou a história como uma ciência e desafiou a lógica de muitos relatos históricos até então aceitos. Num certo sentido ele foi o primeiro filósofo moderno de história. 
 
 
 
Uma outra grande área de atividade intelectual na Andaluzia foi a filosofia, onde foi feita uma tentativa de lidar com os problemas intelectuais surgidos com a introdução da filosofia grega no contexto islâmico. Um dos primeiros a lidar com isto foi Ibn Hazm, que, como autor de mais de 400 livros, foi descrito como "um dos gigantes da história intelectual do Islam".   Existiram outros filósofos também, como Ibn Bajjah, que era médico, e Ibn Tufayl, o autor de Hayy ibn Yaqzan, a estória de um menino que cresceu em completa solidão numa ilha deserta e que, por seus próprios esforços, descobriu as mais elevadas realidades físicas e metafísicas. Foi, no entanto, Averróes - Ibn Rushd - quem alcançou a mais notável reputação. Ele era um aristotélico apaixonado e sua obra teve um efeito duradouro, através da tradução para o latim, sobre o desenvolvimento da filosofia ocidental.
 
 
A lista das contribuições da Espanha islâmica para o ocidente é, na verdade, quase que interminável. Além das contribuições nos campos da matemática, economia, medicina, botânica, geografia, história e filosofia, a Andaluzia também desenvolveu e aplicou importantes inovações tecnológicas: o moinho de vento e as novas técnicas para o trabalho em metal, tecelagem e construção.
 
 
 
 
 

A Arte e a Arquitetura na Andaluzia

 
Quando se fala em "arte islâmica", não significa, necessariamente, uma manifestação artística que tenha por finalidade render o culto à fé. Na verdade, este termo refere-se à unidade criativa de uma arte e arquitetura características de uma civilização que dominou grande parte do mundo durante muito tempo. Tão pouco se limita a uma única etnia e sim a diversas, que abrange regiões tão diversas como grande parte da África, o Magrebe, a Indonésia, o Golfo Pérsico e algumas regiões do Cáucaso, da Europa, da China e Índia. Sob o signo da autêntica identidade supranacional, existem muitas diversidades culturais que tomaram formas locais e regionais. No primórdios do Islam, surgiu, de imediato, uma arte rica e variada, baseada na tradição clássica, na arte bizantina, na persa e na dos povos orientais subjugados. Não obstante, a originalidade das estruturas arquitetônicas e os motivos ornamentais deram, como resultado, uma arte característica, tipicamente muçulmana. Em todas as criações artísticas islâmicas percebe-se uma indiscutível unidade e uma expressão comum. A ornamentação é, sem dúvida, um dos aspectos que mais contribuíram para a unificação da arte islâmica. Os mesmos temas de decoração surgem na arquitetura com independência de material, escala ou técnica utilizada. A grande profusão de superfícies decoradas faz com que as estruturas permaneçam parcialmente camufladas. Através da repetição dos motivos, de um modo geral geométricos, e a sábia combinação de materiais e texturas, consegue-se um efeito tridimensional, que dá às construções um certo ar de mistério. A luz e a água são elementos indispensáveis para se alcançar esse efeito quase irreal. Tanto nos edifícios como nos objetos decorativos, a caligrafia, os motivos de estrelas entrelaçadas e os motivos vegetais estilizados, também conferem aos espaços uma inter-relação harmoniosa.
 
   
 
De um modo geral, os motivos figurativos aparecem nos objetos domésticos, contrariando a crença popular de que a tradição muçulmana os proíbe. É bem verdade que, se não os proíbe, pelo menos desaconselha, uma vez que a divindade perderia seu caráter transcendental e imaterial ao tentar ser representada. Por este motivo, as figuras humanas nunca são encontradas nas mesquitas muçulmanas. Entre as artes decorativas hispano-muçulmanas, merecem destaque os arcos, os entalhes, o uso do bronze, os objetos de madeira, a cerâmica vidrada, as pias para as abluções, os tecidos em seda bordada e os livros ricamente encadernados e com iluminuras. Em relação à arquitetura, são numerosos os edifícios hispano-muçulmanos que ainda podem ser vistos e admirados na Espanha. Entre os de caráter religioso, estão as mesquitas. No início, elas se basearam na casa do Profeta Muhammad, que apresentava um espaço reservado e fechado e outro a céu aberto. Esse esquema simples foi evoluindo até converter-se num organismo perfeitamente funcional e adequado para as orações da comunidade. Na Andaluzia quase todas as mesquitas apresentam a indicação da direção da qibla (Makkah), onde há um mihrab, de onde o imam dirige a oração. Todas possuem minaretes, de onde é feita a convocação para as cinco orações do dia (adhan). Outro elemento característico é o pátio, onde se encontram a fonte para as abluções. A parte coberta da mesquita, chamada haram, compõe-se de uma grande sala, com naves perpendiculares à qibla. Entre as maiores mesquitas de Andaluzia, sobressai-se a de Córdoba. A grande mesquita de Córdoba mereceria um capítulo à parte. Ela foi mandada construir por Abdul Rahman I, em 780, que queria uma mesquita como as do califado de Damasco, onde sua dinastia tinha sido abolida pelos abássidas. Assim, ele decidiu construir a maior mesquita do mundo sobre o que tinha sido a igreja visigoda de São Vicente. A atual mesquita ocupa 23.400 m2, com quase quinhentos arcos e colunas que se sobrepõem, que foram sendo construídos pelos sucessores de Abdul Rahman. É considerada um dos monumentos supremos da arte islâmica e o fantástico bosque de colunas e arcos de seu interior é um dos espaços de oração mais belos que já se construiu.
 
Mesquita de Cordoba Século X  Mesquita de Cordoba Século XXI
   A grande mesquita de Córdoba século X               -               A grande mesquita de Córdoba século XXI
 
Poucas obras de arte desta magnitude apresentam uma confluência artística como a mesquita de Córdoba, onde aparecem justapostos o estilo califal, a influência bizantina e do Oriente Médio e os elementos e influências visigodas e hispano-românicas. Este grande templo muçulmano mostra toda a sua magnificência por onde quer se olhe. Bastam como exemplos, a cúpula octogonal central, ricamente decorada com mosáicos policrômicos e dezenas de detalhes singulares que arrematam o conjunto. O mihrab possui uma decoração deslumbrante, com mármores lavrados com mosaico bizantino. Outra construção característica do mundo islâmico é a madrassa, lugar destinado ao ensino das ciências religiosas e da jurisprudência. Antigamente, eram dispostas em torno de um pátio para o qual davam quatro grandes salas e as acomodações dos estudantes. Em Granada ainda existe uma dessas madrassas, mas as mais espetaculares são as madrassas construídas pelos marinidas em Fez, principalmente a de Bu Inania. No campo da arquitetura militar, cabe citar a fortificação das cidades, com muralhas que apresentavam guaritas em espaços regulares. Quanto à arquitetura residencial, destacam-se também os palácios e alcazares, alguns tão suntuosos como o de Alhambra e o Madinat al-Zahra, um autêntico palácio-cidade. Outra característica da arquitetura hispano-muçulmana é a grande quantidade de salas de banhos e banheiros (hammam), essenciais para a higiene que o Islam tanto preza. Inspirados nas termas antigas, estão integrados por vários espaços onde a temperatura vai aumentando aos poucos. O ar se distribui subterraneamente e é aquecido por grandes caldeiras. Ronda e Jaén dispõem de magníficos exemplos.
 
 
 
A Grande Mesquita de Córdoba
 
 
Durante os trinta e três anos do seu Reinado, Abdrahman fez de Córdoba a sua Capital. Em 785, planejou a construção da Mesquita, que se tornou (dois séculos mais tarde e com várias implicações) uma das obras-primas da arquitetura Islâmica clássica. Na sua primeira versão, este edifício quadrado de 70 metros de lado (que abrange cerca de 500 metros quadrados) era constituído por um átrio oblongo (segundo a tradição Islâmica), antecedido por um pátio, também mais largo do que comprido. A sala hipóstila tinha onze naves com arcadas perpendiculares ao Qibla (lugar para onde os muçulmanos se viram quando fazem as orações). O espaço divide-se em doze vãos assentes em 110 colunas, provenientes de edifícios visigóticos ou de outros mais antigos. Tal como em Damasco, a reutilização de materiais de construção ajudou a ditar a edificação desta Mesquita, na qual as colunas de mármore e os capitéis foram recuperados de antigas cidades devastadas durante as grandes invasões. A fachada do pátio, sustentada por pilares maciços, abria-se em vãos, permitindo que a luz entrasse na sala de Oração, coberta por um teto de madeira.
 
 
 
Nos reinados de Hisham (788-796) e de Al-Hakam (796-822), a Mesquita de Córdoba não sofreu alterações. Só com a chegada do Amir Abdrahman II (822-852) é que as primeiras obras de ampliação fizeram subir para 200 o número de colunas da sala hipóstila. Durante o período de construção, entre 832 e 848, a superfície duplicou e o Qibla foi deslocado para Sudeste, pois o edifício tinha de estar virado para Kaaba, mas o número de naves não se alterou. Oitenta anos depois, Abdrahman III (912-961), que se autoproclamou Califa em 929, levou a cabo uma segunda ronda de ampliações. Mandou ampliar o átrio para Sudeste e colocar um minarete quadrado, com 34 metros de altura, no extremo do pátio. Alguns anos depois, Al-Hakam (961-976) fez outras alterações, conferindo ao monumento o seu aspecto definitivo. O recinto de Oração deixou de ser oblongo para se projetar no sentido do comprimento, ainda com 79 metros de largura, mas com 115 metros de comprimento e 320 colunas. Estes trinta e dois vãos e o "mihrab" (lugar de onde o se profere as palestras), em forma de sala octogonal antecedida por três cúpulas com abóbodas de nervuras intersectadas, que por sua vez eram bordejadas por arcadas multilobadas, devolveram à Mesquita de Córdoba o seu aspecto original.
 
 
 
Decoração Suntuosa e Exuberante
 
 
A decoração da Mesquita de Córdoba foi obra do Califa Al-Hakam II, sobretudo na zona do Mihrab e do maqsura que o rodeavam. Em muitos aspectos, a decoração deste recinto de Oração arrastou as tradições de Jerusalém e de Damasco; há uma continuidade que é visível no estilo Omíada. No entanto, importa recordar que 150 anos separaram as duas criações do Próximo Oriente e a obra Andaluza na sua versão final.
 

 

 
Palácio de Alhambra
 
 
 Palácio de Alhambra
 
O maravilhoso Palácio de Alhambra, situado em uma encosta em Granada, é o Palácio da Andaluzia mais bem conservado. Embora tivesse sido começado em 1230, só dois séculos depois ficou concluído. A Alhambra (em espanhol: الحمراء; "a Vermelha") trata-se de um rico complexo palaciano e fortaleza (alcazar ou al-Ksar) que alojava o emir da Dinastia Nasrida e a corte do Reino de Granada. O seu verdadeiro atrativo, como em outras obras muçulmanas da época, são os interiores, cuja decoração está no cume da arte islâmica. Esta importante atração turística espanhola exibe os mais famosos elementos da arquitetura islâmica no país. A Alhambra é uma cidade amuralhada (medina) que ocupa a maior parte da colina de La Sabika. A cidade de Granada tinha o seu próprio sistema de muralhas, pelo que a Alhambra podia funcionar de forma autónoma em relação a Granada. Na Alhambra encontravam-se todos os serviços próprios e necessários para a população que ali vivia: palácio real, mesquitas, escolas, oficinas, etc. O seu elemento mais ocidental é a alcáçova (cidadela); uma posição fortemente fortificada. O resto do planalto compreende vários palácios, cercados por uma muralha defensiva, flanqueada por 13 torres, algumas defensivas e outras destinadas a providenciar vistas panorâmicas para os seus habitantes. O rio Darro corre ao longo de uma profunda ravina a norte e divide o planalto do bairro de Albaicín. Do mesmo modo, o vale Assabica, onde está inserido o parque de Alhambra a oeste e a sul, e, por trás deste vale, a quase paralela cadeia do Monte Mauror, separa o complexo do bairro de Antequeruela.
 
 
 
A construção de Alhambra
 
 
A maior parte do complexo foi construído, principalmente, entre 1248 e 1354, nos reinados de Ibn-al-Ahmar e dos seus sucessores; a Alhambra é um reflexo da cultura dos últimos anos do reino nasrida, sendo um local onde os artistas e intelectuais procuravam refúgio no decurso das vitórias cristãs por todo o Al Andaluz. Mistura elementos naturais com outros feitos pela mão do homem, sendo um testemunho da habilidade dos artesãos muçulmanos da época. Muhammad ibn Nasr, chamado Al-Hamar (o vermelho) por ter a barba ruiva, o fundador da Dinastia Nasrida, iniciou a construção de Alhambra preparando-a para a residência de um rei. De acordo com um manuscrito árabe publicado como o Anónimo de Granada y Copenhague, "Este ano 1238 Abdallah ibn al-Ahmar escalou ao lugar chamado "a Alhambra" inspecionou-o, definiu a fundação de um castelo e deixou alguns encarregados para a sua construção (…)". O desenho incluía planos para seis palácios, cinco dos quais agrupados no quadrante nordeste formando um quarteirão real, duas torres circulares e numerosos banhos. Durante o domínio da Dinastia Nasrida, a Alhambra foi transformada numa cidade palaciana, completada com um sistema de irrigação composto por canais para os jardins da Generalife, uma vila localizada no exterior da fortaleza. Previamente, a velha estrutura da Alhambra estava dependente da água da chuva recolhida para uma cisterna e daquela que podia ser trazida do Albaicín. A criação do Canal do Sultão solidificou a identidade da Alhambra como uma cidade-palácio, em vez de uma estrutura defensiva e ascética.
 
 
O estilo granadino na Alhambra é o culminar da arte andaluza, o que ocorreu em meados do século XIV durante os reinados de Yusuf I (1333-1354) e Muhammad V (1354-1391). Os esplêndidos arabescos do interior estão relacionados, entre outros emires, com Yusef I, Muhammad V, Ismail I, etc. O domínio muçulmano de Granada chegou ao fim em 1492, quando os nasridas foram derrotados pelo Rei Fernando II de Aragão e pela Rainha Isabela de Castela, os quais tomaram a região envolvente de uma forma esmagadora. Depois dessa data, os conquistadores começaram a alterar o complexo arquitetônico, com os Reis Católicos a fazerem da Alhambra um palácio real. Os trabalhos inacabados foram cobertos de cal, apagaram-se as pinturas e dourados, o mobiliário foi destruído ou levado para outros locais. Carlos V (1516–1556) reconstruiu partes do complexo no estilo renascença, contemporâneo, destruindo grande parte do palácio de Inverno para dar espaço a uma estrutura, também em estilo Renascença, que nunca chegou a ser concluída. Filipe V (1700–1746) modificou os quartos para um estilo mais italano completou o seu palacete mesmo no centro do que fora o edifício mourisco. Erigiu determinadas partes que esconderam por completo algumas estruturas originais. Em anos subsequentes, sob as autoridades espanholas, a arte islâmica continuou a ser desfigurada. Em 1812, algumas das torres foram demolidas pelos franceses, comandados pelo Conde Sebastiani. O resto do edifício escapou por pouco - aliás, era essa a intenção inicial de Napoleão. Em 1821, um terremoto causou mais estragos. O trabalho de restauro, começado em 1828, da responsabilidade do arquiteto José Contreras, foi patrocinado em 1830 por Fernando VII. Depois da morte de Contreras, em 1847, foi continuado, com franco sucesso, pelo seu filho Rafael (morreu em 1890), e pelo seu neto Mariano.O Comité do Património Mundial da UNESCO declarou a Alhambra e o Generalife de Granada como Património Cultural da Humanidade na sua sessão do dia 2 de Novembro de 1984 e, cinco anos depois, o bairro de El Albaicín (Al Albayzín), antiga cidade medieval muçulmana, obteve a mesma denominação como extensão da declaração de Património Cultural da Humanidade de La Alhambra e do Generalife.
 
 

 

Medina al-Azahra
 
 Medina Zahara
 
Medina Al-Azahra que significa "a cidade de Zahra", era uma cidade palaciana localizada a cerca de 5 km de Córdoba. A sua construção começou no ano de 936 d.C. a mando de Abdrahman III, primeiro califa do Al-Andalus, e os principais motivos da sua construção foram de índole político-ideológica: a dignidade do califa exige a fundação de uma nova cidade, símbolo do seu poder político. Outro motivo apontado foi a construção da medina em honra da mulher de Abdrahman III, Al Zahra. Viria a ser destruída e saqueada em 1010 por ocasião da fitna que levaria ao colapso do Califado. Este ataque riscaria a cidade do mapa durante quase um milénio.As obras começaram em 936, a cargo do mestre alarife Maslama ben Abdallah. Em 945 ocorreu o translado da corte a esta cidade, que nesses momentos conta com a mesquita Aljama (941), embora a casa da moeda não se transladasse até 947-948. Porém, as obras prolongaram-se até o reinado de Alhakam II, o que explica as similaridades estilísticas entre esta cidade e a ampliação da mesquita de Córdoba, levadas a cabo por este filho e sucessor de Al-Nasir. Situa-se na Sierra Morena, ao pé da montanha Yebel al-Arus ('monte da Desposada') e em contato com o vale do Guadalquivir. A topografia em ladeira deste lugar explica a sua disposição em terraços ou níveis, o primeiro dos quais corresponde à zona residencial do califa, seguido pela zona oficial (casa dos vizires, corpo de guarda, salão rico, dependências administrativas, jardins…) para finalmente albergar a cidade propriamente dita (moradias, artesãos…) e a mesquita Aljama, separadas dos dois terraços anteriores por outra muralha específica para isolar o conjunto palaciano.Medina Azahara apresenta uma planta retangular de aproximadamente 1500 metros por 750, com traçado ortogonal e uma rede de esgoto e abastecimento de água perfeitamente planejada. É considerada a maior superfície urbana construída de uma vez no Mediterrâneo. Atualmente só se tem escavado cerca de 10% da sua superfície total, entre a que se destaca o salão rico ou salão de Abdrahman III, usado para a recepção de embaixadores importantes, bem como para celebrar as festas anuais de final do jejum e dos sacrifícios, que ocorreram em Medina Azahra de 971 a 976.
 
O salão Rico foi construído entre 953 e 957 por Abdrahman III, como testemunham as inscrições epigráficas aparecidas nas pilastras no seu interior; tem planta basilical de três naves longitudinais com outra transversal na sua entrada que age de pórtico. Este salão está decorado com relevos de ataurique em mármore nos seus rodapés, seguido por relevos de diferentes motivos até a típica coberta de artesoado de madeira. As colunas alternam os fustes de mármore rosa e azul, terminados por cimácios e os típicos capitéis de vespeiro califais, desde os que arrancam os característicos arcos de ferradura, nos quais se dá a alternância de aduelas; é aqui onde se formalizam as características do arco de ferradura califal, onde o alfiz aparece como envoltório protetor do próprio arco. Sobre estes apoia-se o friso corrido em contato com o cobrimento de madeira. Destaca-se de todo o conjunto uma série de tabuleiros, cujo tema único é a árvore da vida. Constitui a peça mestra do conjunto arquitetônico que inclui o Jardim Alto. Ambos, o salão e jardim, fazem parte de uma mesma concepção com forte simbolismo religioso e político, que tem por objeto a magnificação do califa. A oriente do salão, e ligados com o mesmo, foram construídos um conjunto de cômodos pavimentados em mármore branco, bem como o chamado “pátio da pia”, que faz parte das estâncias prévias a um banho de reduzidas proporções. A sala de cinco naves da Casa dos Vizires abre-se para uma larga e elevada calçada, da que baixam umas escadas para uma gigantesca praça quadrada, atualmente adaptada como jardim.
 
 
Sobre a função deste edifício há diferentes opiniões. Durante muito tempo foi chamado “a Casa do Exército” pois as medidas da sala e da explanada parecem aludir a funções representativas. Contudo, atualmente acredita-se que o edifício estava a disposição do pessoal encarregue da administração. A medina esteve cercada por uma grossa muralha, que constitui mais um limite que um dispositivo militar estritamente defensivo. Somente foi escavado o trecho central da muralha norte, construída com silhares de pedra calcária, como toda a cidade. Para o exterior é reforçada com torres retangulares e no interior apresenta contrafortes como reforço estrutural, para conter o empuxo das terras da ladeira.No centro desta muralha norte uma porta onde existia um caminho que ligava Medina Azahra com Córdoba. Este acesso norte ao Alcázar apresenta uma disposição acotovelada, quebrada, que responde ao tipo de “portas em cotovelo” usadas na arquitetura militar islâmica. O que atualmente se observa corresponde à restauração realizada durante a década de 1930 por Félix Hernández, pois quase a totalidade da estrutura original desapareceu devido às espoliações sofridas nos muros.
 
 
 
 
Mesquita Aljama
 
 
No terraço inferior situa-se a mesquita aljama. De planta retangular, aparece orientada para sudeste e os seus elementos básicos (pátio, sala de oração e minarete) organizam-se segundo o esquema característico do ocidente islâmico. A sala de oração é de planta basilical, com cinco naves separadas por arcarias de ferradura. A noroeste ergue-se o minarete, de planta quadrada no exterior mas octogonal no interior.No lateral oriental do Jardim Alto, um passadiço coberto (sabat) permitia o califa deslocar-se para o interior, salvando o desnível da rua com uma ponte da que apenas restam os seus baseamentos; assim penetrava na mesquita através da dupla quibla que dava à maqsura, construída com barro cozido. O restante do solo da sala de oração estava coberto com esteiras de esparto, alguns de cujos vestígios apareceram na escavação.
 
Mesquita Aljama
 
O exterior da mesquita apresentaria muros lisos com contrafortes coroados por ameias dentadas, centrando-se a sua decoração nas portas. Construíram-se uma série de cômodos frente à fachada principal da mesquita, que pela distribuição e local, podem ser identificados como uma casa de esmola (dar al-sadaka). Apesar da riqueza e solidez dos materiais empregados, Medina Azahara não chegou a sobreviver nem um século após a sua construção, pois foi demolida e saqueada em 1010, como consequência da guerra civil (ou fitna) que pôs fim ao califado de Córdoba. Seu saque e desmantelamento prosseguiu nos séculos sucessivos, pois foi usada como "canteira artificial" para a construção de outras edificações posteriores na cidade de Córdoba. Um dos objetos mais importantes encontrados foi a caixa de marfim com inscrições chamada de Píxide de Al-Mughira, que é conservada no museu do Louvre.As escavações oficiais começaram em 1911, e seguiram sem interrupção desde então. O arquiteto Félix Hernández Giménez foi o investigador que escavou a parte central do Alcázar (uma superfície de 10,5 hectares), bem como foi restaurado o salão de Abdrahman III. Em abril de 2007 começaram, pela primeira vez, escavações no exterior da zona do Alcázar, com o fim de documentar o traçado da muralha sul da cidade, bem como de localizar alguma das portas secundárias e estruturas intramuros e correspondentes aos arrabais. O objetivo último desta escavação é possibilitar num futuro um itinerário de visita que transcorra, desde o novo centro de visitantes a sudeste do sítio arqueológico, através dos caminhos originais da cidade palatina. Entre as descobertas mais imediatas desta nova campanha destacam-se as fossas de espoliação da muralha, bem como uma mesquita.
 

 

Palácio da Aljafería
 
Palácio de Aljaferia
A Aljafería é um palácio fortificado construído na segunda metade do século XI, na época de Al-Muqtadir, em Zaragoza, como residência dos reis e reflete o esplendor alcançado pelo reino taifa de Saraqusta no momento de seu máximo apogeu político e cultural.Sua importância reside no fato de que é o único testemunho conservado de um grande edifício da arquitetura islâmica espanhola da época das Taifas. De modo que, se conserva um magnífico exemplo do Califado de Córdoba, sua Mesquita (século X), e outro do "canto do cisne" da cultura islâmica, La Alhambra de Granada, esta já do século XIV, deve-se incluir na tríade da arquitetura hispano-muçulmana a Aljaferia de Zaragoza (século XI) para conhecer as realizações da arte taifa dessa época intermédia de reinos independentes anterior à chegada dos almorávidas.A construção do palácio foi ordenada por al-Muqtadir, segundo monarca da dinastia dos Banu Hud, como símbolo do poder alcançado pela Taifa de Zaragoza na segunda metade do século XI. O rei em pessoa chamou ao seu palácio de "Qasr al-Surur" (Palácio da Alegria) e a sala do trono onde presidia as recepções e embaixadas de "Maylis al-Dahab" (Salão Dourado). O nome Aljaferia é documentado pela primeira vez num texto de al-Jazzar as-Saraqusti (entre 1085 e 1100) e outro de Ibn Idari de 1109, como derivação do prenome de al-Muqtadir, Abu Ja'far, e de «Ja'far», «al-Jafariyya», que evoluiu para «Aliafaria» e daí a «Aljaferia».
 
 
Depois da reconquista de Zaragoza em 1118 por Afonso I, O Guerreiro passou a ser residência dos reis cristãos de Aragão, com o que a Aljaferia se converteu no principal foco difusor do mudéjar aragonês. Foi utilizada como residência régia por Pedro IV, o Cerimonioso e posteriormente, na planta principal, foi efetuada uma reforma que converteu estas estâncias em palácio dos Reis Católicos em 1492. Em 1593 experimentou outra reforma que a converteria em fortaleza militar, primeiro segundo desenhos renascentistas (que hoje se podem observar no seu entorno, fosso e jardins) e mais tarde como aquartelamento de regimentos militares. Sofreu reformas contínuas, e grandes danos, sobretudo com os Sítios de Zaragoza da Guerra da Independência Espanhola até que finalmente foi restaurada na segunda metade do século XX e atualmente acolhe as Cortes de Aragão.
 
 

 

Abdrahman III
 
O Abdrahman III, foi o oitavo Emir de Córdoba (912 - 929) e, depois, o primeiro califa do Al-Andaluz (de 929 a 961). É considerado o maior e mais bem sucedido dos príncipes da dinastia omíada na península Ibérica. Ascendeu ao trono apenas com vinte e dois anos e reinou cerca de meio século. A sua vida está de tal forma identificada com o governo do seu estado que acabamos por ter mais material biográfico sobre o seu antecessor Abdrahman I, que sobre si, inegavelmente mais importante no plano histórico. Era neto de Abdallah, outro grande líder hispânico dos omíadas, a quem sucedeu. Abdrahman III conseguiu fazer face a todos os seus adversários, foi conhecido pela sua tolerância para com a comunidade cristã e judaica. Ao declarar-se o Califado de Córdoba estava quebrando, efetivamente, todos os laços que o uniam aos Califas Egípcios e Sírios. Os seus ascendentes tinham-se contentado apenas com o título de emir (príncipe). Na altura, era aceito que apenas o governante das cidades santas de Makkah e Madina poderiam reclamar tal título. A força da tradição estava, contudo, muito esbatida, de modo que Abdrahman III fez-se proclamar sucessor do Profeta (califa) e príncipe dos crentes (amir al-Mu'minin) a 16 de Janeiro de 929, ganhando um prestígio sem precedentes para um líder muçulmano na Europa, tanto entre os seus súditos hispânicos como na África. Foi nessa data que assumiu a sua al-kunya an-Nasir li-Din Allah (vencedor em nome de Allah).
 
La civilització del califat de Còrdova en temps d'Abd-al-Rahman III
Dionisio Baixeras Verdaguer (1862–1943) em sua arte: La civilització del califat de Còrdova en temps
d'Abd-al-Rahman III, retrata o Califa Abdrahman III recebendo em seu palácio um grupo de monges cristãos.
 
A sua principal missão, foi a unificação de al-Andaluz, conquistou Osma, de San Esteban de Gormaz. Em resposta aos ataques do rei de Leão Ordonho II, venceu os reis de Leão e Navarra, na Batalha de Valdejunquerra, a 26 de Julho de 920.O Califado de Córdoba entrou numa época de grande prosperidade econômica e prestígio mundial. É disso exemplo a quantidade de moedas de ouro e de prata cunhadas por Abdrahman III. O conjunto de obras públicas e medidas administrativas foram também muito elogiadas ao longo da história. Os povos mais distantes da época fizeram-lhe homenagens por diversas vezes. Foi o fundador da escola de medicina de Córdoba. Abdrahman III, morreu na Medina Al-Zahra aos 70 anos, após um reinado de 50 anos e meio. O corpo foi transladado para o Alcácer de Córdoba, onde foi enterrado. Abdrahman III não somente fez de Córdoba o centro nevrálgico de um novo império muçulmano no Ocidente, mas converteu-a na principal cidade da Europa Ocidental, rivalizando ao longo de um século com Bagdá e Constantinopla (capitais do Califado Abássida e do Império Bizantino, respectivamente) em poder, prestígio, esplendor e cultura. Sob o seu governo, a cidade alcançou o milhão de habitantes, que dispunham de mil e seiscentas mesquitas, trezentas mil moradias, oitenta mil lojas e inúmeros banhos públicos. Este califa omíada foi também um grande impulsionador da cultura: dotou Córdoba com cerca de setenta bibliotecas, fundou uma universidade, uma escola de medicina e outra de tradutores do grego e do hebraico para o árabe. Fez a ampliação da Mesquita de Córdoba, reconstruindo as ameias, e mandou construir a extraordinária cidade palaciana de Madinat al-Zahra, na qual residiu até à morte. O aspecto do desenvolvimento cultural não é menos relevante com a chegada ao poder do califa al-Hakam II, a quem é atribuída a fundação de uma biblioteca que teria atingido os 400 000 volumes. Talvez isso provocou a ascensão de postulados da filosofia clássica -tanto grega quanto latina- por parte de intelectuais da época como foram Ibn Masarra, Ibn Tufail, Averróis e o judeu Maimônides, embora os pensadores de Al-Andalus se destacassem, sobretudo, em medicina, matemáticas e astronomia.
 
 

 

Andaluzia e a Civilização Islâmica
 
 
A Andaluzia é a principal via da civilização muçulmana, a ponte mais importante através da qual a civilização islâmica se transferiu para a Europa e teve um impacto em várias áreas científicas, intelectuais, sociais e econômicas. A Andaluzia, que é parte da Europa, permaneceu por oito séculos (92-897 dH / 711-1492 dC) como um farol irradiante da civilização durante o tempo em que os muçulmanos estavam lá, mesmo quando era politicamente fraco, e quando os reinos dos partidos apareceram. Isso ocorreu através de suas universidades, escolas, bibliotecas, fábricas, palácios, jardins, cientistas e homens de letras. A Andaluzia tornou-se ponto de atenção dos europeus, cujos países tinham contatos íntimos e contínuos com a Andaluzia. [Hani al-Mubarak e Shawqi Abu Khalil: Dawr hadarah al-al-al-Islamiyah Arabiyah fi al-Al Nahda urubiyah (Papel dos árabes, a civilização islâmica no renascimento europeu), pp 51,52.] Logo após os muçulmanos se estabelecerem na Espanha, eles se dedicaram ao conhecimento e concentraram sua atenção sobre as ciências, a literatura e as artes. Nesse sentido, os muçulmanos superaram o progresso alcançado por seus irmãos no oriente, fizeram grandes inovações em todas as ciências, o que deu à Europa enormes fontes das quais continuou a assimilar o conhecimento desde o final do século XI até o renascimento italiano, no século XV. Gustav Le Bom disse: "Tão logo os árabes completaram a conquista da Espanha, eles começaram a cumprir a mensagem da civilização nela. Em menos de um século, eles conseguiram dar vida a uma terra árida, reconstruir as cidades destruídas, instituir magníficos edifícios e fortalecer estreitas relações comerciais com outras nações. Eles então passaram a se dedicar ao estudo das ciências e artes e à tradução dos livros do grego e do latim, e fundaram as universidades que continuaram a ser um lugar para a cultura na Europa por muito tempo." [Lebon Gustav: A civilização dos árabes p 273.]
 
A política de tolerância islâmica teve um grande impacto sobre a Ahl al-Zhimma (não-muçulmanos que vivem sob a proteção do Estado Muçulmano), incluindo judeus e cristãos. Os espanhóis arabizados tiveram interesse em estudar a língua árabe e a usaram em suas vidas cotidianas. Eles até mesmo a preferiram em vez da língua latina. E muitos judeus estudaram nas mãos dos professores árabes. A tradução do árabe na Andaluzia prosperou muito, principalmente em Toledo, durante os séculos XII e XIII. A tradução costumava ser feita do árabe para o espanhol e, depois, para o latim, ou do árabe para o latim diretamente. A tradução não ficou restrita aos livros escritos por cientistas árabes sobre todos os ramos do conhecimento, mas abrangeu grandes livros gregos que foram traduzidos no oriente dois séculos antes. Alguns livros de escritores gregos, como Galeno, Hipócrates, Platão, Aristóteles, Euclides e outros foram traduzidos. Um dos mais famosos tradutores de Toledo foi Gerard de Cremona, que é chamado de “o toledense”. Ele chegou da Itália, em 1150 dC, e lhe é atribuída a tradução de cerca de cem livros, entre eles: 21 de medicina, incluindo a Al-Mansuri, escrito por Al-Razi e al-Qanun (A lei) por Ibn Sina. Alguns dos livros parecem ter sido traduzidos pelos seus alunos sob sua supervisão e alguns em colaboração com outros, principalmente “Galipus”, que era arabizado. Durante o século XII, a tradução também foi praticada por espanhóis e outros que vieram para a Espanha. Afonso X, o rei de Castela (1252-1284 dC) criou várias instituições de ensino superior e incentivou a tradução do árabe para o latim e, às vezes, para a língua castelhana. [Mahmud al-Jalili: Ta'thir al-tib Al-Arabi fi al-hadarah al- urubiyah (O impacto da medicina árabe na civilização européia)] Sarton disse: "Os muçulmanos, os gênios do Oriente, realizaram grandes conquistas na Idade Média. Os livros mais valiosos, mais originais e mais ricos em conteúdo, foram escritos em árabe. A partir de meados do século VIII até o final do século XI, o árabe era a língua da ciência que elevava a raça humana, a tal ponto que qualquer pessoa que queria estar familiarizado com a cultura de sua época e com sua forma mais recente tinha que aprender a língua árabe, e muitos estrangeiros aprenderam o árabe. Eu não creio que precisamos ressaltar os progressos científicos dos muçulmanos nas áreas de matemática, física, astronomia, química, botânica, geografia e medicina." [Hassan Shamsi Basha: Hakaza kanu iauma kunna (assim eram quando éramos) p 8. Veja: Ahmad Ali Al-Mulla: Athar al-Ulama al-Muslimin fi al-hadarah al-urubiyah (Impacto dos estudiosos islâmicos na civilização européia) p 110, 111.] A Andaluzia foi, portanto, um importante centro da civilização islâmica e foi uma das rotas mais importantes, através da qual está civilização se transferiu para a Europa.

 

 
CRONOLOGIA BÁSICA DE AL-ANDALUZ
 
 
711: Tarik, oficial do governador do norte da África, Musa Ibn Nusayr, sai de Tanger chefiando um exército de 7.000   homens e desembarca em Gibraltar. A ocupação da península se completa em 5 anos.
718: Possível data da batalha de Covadonga, que assinala o começo da resistência Astúria.
720: As muralhas e a ponte romana, de Córdoba, são reconstruídas e é fundado o primeiro cemitério muçulmano.
756: Abdul Rahman I, o último omíada de Damasco, chega à península e ocupa Córdoba. Estabelece uma dinastia que governará a Andaluzia até 1031.
784: Começa a construção da Mesquita de Córdoba.
822: O sucessor de Al-Hakam I, Abdrahman II, traz um período de prosperidade à Andaluzia. Aumenta a Mesquita de Córdoba e são construídas outras em Jaén e Sevilha.
831: Fundação de Murcia.
844: Incursão dos normandos a Lisboa, Sevilha, Cádiz e Sidônia.
929: Abdrahman III se proclama Príncipe dos crentes e torna-se independente de Bagdá. Começa o califado de Córdoba.
936: Início da construção da cidade de Madinat al-Zahra.
955: Fundação de Almería.
961: Al-Hakam II, sucessor de Abdrahman III cria uma biblioteca de mais de 400 mil volumes.
997: Campanha contra Santiago de Compostela, a cargo de Almanzor.
1031: Com a queda da dinastia omíada, começam a surgir reinos independentes de taifas em toda Andaluzia.
1042: Começam as obras do Alcázar de Sevilla.
1062: Fundação de Marraquesh.
1064: Construção da Alcazaba, al-qasbah, recinto fortificado, de Málaga.
1081: Desterro de El Cid.
1085: Alfonso VI toma Toledo. O rei de Sevilha, al-Mutamid, pede ajuda aos almorávidas e junto a eles derrota os cristãos em Sagrajas.
1163: Sevilha, capital de al-Andaluz.
1184: Começa a construção da Giralda de Sevilla.
1195: As tropas almoadas de Yaqub vencem ao exército cristão de Alfonso VIII, de Castela, em Alarcos.
1198: Morre Ibn Rushd, mais conhecido como Averróes.
1212: Os exércitos aliados de Castela, Aragão e Navarra vencem aos almoadas na batalha de Navas de Tolosa.
1231: Al-Ahmar ibn Nasr, fundador da dinastía nazarí, é nomeado governador de Arjona, sua cidade natal, e pouco depois estenderá seu poder a Jaén e Guadiz.
1236: Córdoba rende-se a Fernando III, de Castela. Alguns anos mais tarde, cairiam Jaén e Arjona (1246), Sevilha (1248) e outras cidades de Andaluzia.
1237: Começa a construção de Alhambra, sob a orientação de al-Ahmar.
1314: Começam as obras do Generalife.
1482: Inicia-se a guerra de Granada. Bobadilha arrebata o trono a seu pai.
1487: Málaga se rende às forças cristãs.
1489: Baeza e Almería rendem-se pacificamente aos reis católicos.
1491: Bobadilha, último rei nasari, capitula ante os reis católicos e negocia a entrega de Granada em 25 de novembro.
1492: No dia 2 de janeiro, os reis católicos entram em Granada, o último reduto muçulmano na Europa.
 

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